O agravamento da crise européia pode afetar o atual ciclo de expansão da economia brasileira?
*José Álvaro
de Lima Cardoso
Neste momento são grandes as incertezas na zona do euro, e o pior é que nem o pacote de
ajuda de 750 bilhões de euros (cerca de US$ 925 bilhões) negociado para a zona do euro parece
ter acalmado os mercados. O cenário é de recessão para toda a região e a recuperação será lenta e
tortuosa. Por outro lado, os problemas estruturais da Europa, especialmente os relacionadosà questão fiscal, dependem de ações de longo prazo e com enorme custo social e político.
A crise na Europa deve acentuar a redução do saldo comercial brasileiro, já que vem
decrescendo a fatia da UE como destino das exportações brasileiras. Este processo, vale frisar, já vinha de antes da crise: em 2000 a zona do euro comprava 26,8% das exportações brasileiras,
percentual que no ano passado, recuou para 22,2%, menor nível na última década. É claro que,
em face da crise e do inevitável ajuste fiscal que a aquela região terá que realizar, a perda do
mercado europeu vai se acentuar nos próximos anos. Uma outra possibilidade aventada pelos
especialistas em comércio exterior é de uma queda global dos preços dos produtos exportados
pelo Brasil, em função da menor demanda da Europa, que ocupa posição central no comércio
mundial.
Mas, além dos efeitos sobre a balança comercial, de que outras formas a crise européia pode
afetar a economia brasileira? Primeiro é bom frisar que esta crise não se iguala a de 2008, que
atingiu o mundo todo. Ela é mais circunscrita à Europa. Um primeiro impacto, observado
principalmente nos últimos dias, é na taxa de câmbio, que tem se depreciado.Os efeitos deste
fenômeno são contraditórios: ajuda na questão do déficit externo, mas pressiona, ao mesmo
tempo, os preços. Uma possibilidade não descartada é a crise se alastrar para um número maiores
da países da Europa e implicar numa retração do crédito internacional, que atinja o mundo todo.
Neste caso, o Brasil poderia ter maiores dificuldades para exportar e o ritmo de crescimento da
economia poderia desacelerar. Se este cenário se confirmasse a própria política monetária teria
que ser revista, já que não faria sentido continuar elevando a taxa Selic em um contexto de
redução do ritmo de crescimento do nível de atividade. Mas o arsenal de medidas usadas em
2008 para combater a escassez do crédito pode voltar a ser usado, em um caso extremo, com a
destaque para: liberação de parte dos depósitos compulsórios, política fiscal expansionista,
elevação do crédito nos bancos públicos e a disponibilização das reservas cambiais para financiar
as exportações.
Um outro aspecto que favorece o Brasil é a situação fiscal. Apesar das recorrentes críticas de
economistas mais conservadores sobre a expansão de gastos públicos no Governo Federal,é inegável que a situação do Brasil nessa seara, é confortável. O déficit nominal está em torno dos
2% a 3% do Produto Interno Bruto (PIB), muito inferior aos 13% de alguns países
desenvolvidos. Além disso, a relação dívida líquida do setor público/PIB, voltou ao patamar
verificado antes da crise de 2008, equivalente a 42%. Nível bastante confortável e em trajetória
de queda. Atualmente o superávit primário necessário para estabilizar a relação entre dívida
líquida e PIB é bastante inferior ao exigido há alguns anos atrás, em função da elevação do PIB e
dos níveis de juros reais vigentes, bastante baixos para padrões históricos. A meta de superávit
primário para 2010, de 3,3% do PIB pode ser considerada até exagerada, especialmente se
considerarmos que o governo pode usar, se achar necessário, os recursos do Fundo Soberano,
que equivalem a cerca de 0,7% do PIB. Praticamente todos os números afastam, portanto, o risco
de insolvência do setor público em 2010.
Outro fator importante de estabilidade é o nível das reservas cambiais. O Brasil possui US$
249,5 bilhões (19.05), cerca de US$ 45 bilhões a mais do que tinha antes da crise de 2008. A
história recente do Brasil mostra que o nível das reservas é um fator chave no enfrentamento das
turbulências da economia mundial. Em 2002 o Brasil possuía apenas US$ 37,8 bilhões em
reservas, e o país ficou insolvente, tendo que recorrer ao Fundo Monetário Internacional (FMI).
Os níveis atuais permitem enfrentar uma crise de liquidez, como ocorreu em 2008, ou um
crescimento muito rápido do déficit externo, sem cobertura de Investimentos Externos Diretos
(IED). Outro aspecto importante é que, ao que se sabe, não existem atualmente grande número
de empresas no Brasil, envolvidas com operações em derivativos cambiais, ao contrário de 2008,
quando algumas quase faliram (ou faliram mesmo) por conta dessas operações de alto risco.
*Economista e supervisor técnico do DIEESE em Santa Catarina.