A difícil retomada do crescimento nos países ricos

*José Álvaro de Lima Cardoso

No processo de retomada do crescimento o maior problema para os países ricos, possivelmente, seja a fraca reação da demanda, visto que a intervenção dos Estados para socorrer a economia, se deu muito mais no apoio financeiro às empresas, do que propriamente no estímulo ao consumo, como fez o Brasil, por exemplo. Nas economias desenvolvidas, de uma forma geral a renda foi diretamente afetada, diminuindo o poder aquisitivo da população. Com o agravante que, em alguns países, como nos EUA, a renda de uma parcela importante da população já vinha estagnada há décadas. A bolha imobiliária formada nos EUA foi em boa parte justamente o aumento desenfreado do consumo, mas não com base em crescimento dos salários e sim da disponibilidade de crédito. O que é pior, crédito subprime, de segunda linha e maior risco. 

Neste contexto, em que são os países emergentes (especialmente China, Índia e Brasil) os que, bem ou mal, vêm puxando a lenta retomada da economia mundial, o G-20 tem se fortalecido enquanto instituição com peso crescente na coordenação da política econômica mundial. Na ausência de outras estruturas mais eficazes o G-20 vem realizando maior troca de informações entre os países, o que melhora um pouco o encaminhamento de saídas mais coletivas para a crise. 

Um dos problemas centrais que teria que ser debatido no G-20, mas que é muito difícil de ocorrer em função das diferenças de enfoques e interesses, é a questão das barreiras contra a entrada de capitais especulativos. Com cada país tendo interesses próprios, muitas vezes antagônicos aos demais, a tendência é eles adotarem medidas isoladas, como fez o Brasil com a criação do Imposto Sobre Operações Financeiras (IOF) para capitais especulativos. Um caso típico são os juros estadunidenses que, próximos de zero, acabam por alimentar a especulação e o risco potencial de bolhas de novos ativos. A sua elevação valorizaria o dólar, melhorando a questão do câmbio no Brasil. Mas, como afirmou Ben Bernanke em recente audiência pública sobre o assunto, a manutenção de juros baixos é uma decisão de política monetária para tratar de problemas econômicos e financeiros dos EUA.

Uma grande dificuldade no processo de recuperação do crescimento mundial é a situação fiscal dos países ricos. Praticamente todos estes países carregam grandes déficits e dívidas bilionárias: o Japão tem uma dívida pública de cerca de 200% do PIB, os EUA vão terminar o ano com um déficit nominal que superará os 10%. Além disso, a injeção de trilhões de dólares nos mercados gerou um empoçamento de liquidez, ou seja, a não absorção de uma parte destes recursos pelo processo produtivo, até em decorrência do ritmo lento da retomada. Com uma maior estabilidade dos mercados de crédito, estes recursos passaram a buscar remuneração melhor em todos os cantos do mundo. A euforia da Bolsa no Brasil, que tem sido impulsionada por grandes somas de capitais internacionais, está em boa parte relacionada com esse fenômeno.

*Economista e supervisor técnico do DIEESE em Santa Catarina.

09/12/2009

 
 
 
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