Financiar o crescimento com dívida externa é um erro que o Brasil não pode cometer
*José Álvaro
de Lima Cardoso
No atual contexto de forte recuperação do crescimento e considerando-se a tradição conservadora do Banco Central, um dos grandes riscos para a economia brasileira em 2010 é o de um novo ciclo de elevação dos juros, aplicados como antídoto para o perigo inflacionário. A provável justificativa do Comitê de Política Monetária seria a possibilidade de um descompasso entre oferta e demanda, o que é muito difícil, dado o presente retorno dos investimentos na economia, que já deverão estar maturados, em boa parte, no primeiro semestre de 2010.
Neste momento o Brasil é uma espécie de coqueluche dos investidores, porque manteve os seus bons fundamentos durante a crise. As perspectivas de crescimento são muito boas, o mercado interno está em franco crescimento e o país possui regras claras de funcionamento do seu sistema democrático. Ademais, vem por aí o ciclo de exploração do pré-sal, a Copa do Mundo em 2014 e Jogos Olímpicos em 2016, eventos que atraem capitais e grandes investimentos em infra-estrutura. Exatamente por isto é a hora de fazer a lição de casa.
O risco de elevação dos juros está principalmente no estrago que provoca na taxa de câmbio. Com a taxa de câmbio atual uma parte da produção industrial já está perdendo a corrida para a indústria de países que mantém o câmbio competitivo. O valor agregado na produção da indústria manufatureira brasileira entre 2003 a 2007 caiu 12,7% e, no caso dos produtos primários e seus derivados, ocorreu uma alta de 2,3%. Nos dos manufaturados, a queda no segmento de média e média alta tecnologia chegou a 14,4%. Além disso, o volume físico da exportação de produtos primários cresceu 35% a mais do que dos manufaturados no período mencionado. No mesmo período, enquanto o volume de importações de primários aumentou 26%, o de manufaturados cresceu 154%. De 1997 a 2008, enquanto os investimentos no setor de commodities cresceram 277% os de manufaturado expandiram apenas 30%.
A cobrança de Imposto Sobre Operações Financeiras (IOF) para os recursos que ingressam para aplicações em títulos de renda fixa e para o mercado de ações foi importante, ainda que insuficiente. É fundamental também manter e até intensificar a política de compra de reservas, pois além de evitar uma queda ainda maior do preço do dólar, aumenta as reservas internacionais brasileiras, vitais em caso de crise cambial. Mas o governo tem que evitar ao máximo o aumento da taxa de juros, pois ainda é grande ainda o diferencial de juros cobrados pelo Brasil e o externo, fato de grande atração de capitais. Além disso a inflação está totalmente sob controle. Apreciar demais o câmbio e financiar o crescimento com dívida externa é um erro que a política econômica brasileira não pode se dar ao luxo de cometer.
*Economista e supervisor técnico do DIEESE em Santa Catarina.