Desafios do Movimento Sindical na Mobilização da Classe Trabalhadora

Seminário promovido pela FETIESC busca novas formas de lutas contra a opressão do capital

Seminário sobre Política Sindical realizado pela Fetiesc no dia 8 de julho reuniu dezenas de dirigentes sindicais no Centro de Educação sindical da Federação, em Meia Praia, Itapema. O evento, promovido pela Secretaria de Formação da Fetiesc, teve por objetivo oferecer subsídios práticos e teóricos aos representantes dos trabalhadores nos enfrentamentos da classe trabalhadora com a classe patronal.

O Seminário contou com a participação de palestrantes engajados na luta dos trabalhadores e ocorreu durante todo o dia. Na parte da manhã, falaram ao público a professora do Curso de Sociologia da UFSC, Nise Jinkings, que abordou o tema "Consciência da Classe Trabalhadora no século XXI", e o jornalista Altamiro Borges, que fez uma análise sobre o Papel da Mídia Brasileira.

A parte da tarde foi dedicada à análise do processo eleitoral deste ano, sob a apresentação da deputada estadual Ângela Albino (PCdoB), que abordou o tema Processo Eleitoral e os Movimentos Sociais no Estado de Santa Catarina, e do também deputado estadual pelo PT, Pedro Uczai, que falou sobre A Política na Atualidade. O presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Santa Catarina, Rubens Lungue foi o mediador do primeiro debate e o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Químicos de Criciúma e Secretário de Formação da Fetiesc, Carlos de Cordes (Dé), do debate realizado na parte da tarde.

Transparência

O presidente da Fetiesc, Idemar Antônio Martini fez questão de assumir publicamente quem são seus candidatos no pleito deste ano. De acordo com ele, é necessário que os representantes dos trabalhadores assumam uma posição política que represente a ideologia dos trabalhadores e trabalhadoras de Santa Catarina e do Brasil. Filiado ao PCdoB, Martini comprometeu-se com a candidatura de Dilma Roussef à presidência da República. "Temos que ter um lado. E este lado é o mesmo do trabalhador brasileiro", resumiu o presidente da Fetiesc.

Individualismo sem individualidade

Ao mesmo tempo em que a luta sindical amplia seus espaços, a combinação do aumento dos lucros patronais e o avanço da tecnologia geram uma falsa aparência de democratização nos locais de trabalho e o trabalhador deixa de ser visto e de se ver como um explorado, mas sim como um "colaborador". A avaliação da professora Nise Jinkings reflete a situação atual dos operários que, em todo o Brasil, vivem um momento difícil no sentido de saber por que lutam: por salário, por saúde ou por uma ideologia que desapareceu com o advento do neoliberalismo.

De acordo com Nise, o sindicalismo hoje está em grande dificuldade devido às táticas e estratégias utilizadas pelo patrão nos locais de trabalho, onde o controle da produção e do trabalhador chegou a um limite ultrajante. Através de mecanismos sutis e sofisticados, os trabalhadores são levados ao "individualismo sem individualidade". São forçados a aumentar o ritmo de trabalho a níveis acima da condição humana e acreditar que tudo isso é resultado das exigências do mercado, o que não passa de uma grande mentira.

O grande desafio do movimento sindical contemporâneo, segundo a professora, é retomar a Organização no Local de Trabalho (OLT) e enfrentar essa hegemonia ofensiva, ideológica, resgatar o sentido de pertencimento de classe e desenvolver essa consciência nos locais de trabalho. Também é necessário constituir um sindicalismo dotado de uma abrangência maior, articulado com a luta social e política, além de expor à sociedade a realidade da exploração dos trabalhadores. "A luta dos sindicatos deve ser anticapitalista", resume a professora.

A mídia não é neutra

"A mídia é um grande aparato para tomar a consciência das pessoas". A afirmação é do jornalista Altamiro Borges e reflete a realidade brasileira, onde a população se anestesia em frente à televisão e se distancia cada vez mais da verdade. O jornalista Altamiro Borges é um crítico ferrenho da mídia brasileira e para mudar a situação de dominação a qual nos encontramos, ele propõe, entre outras coisas, que o movimento sindical invista em uma mídia própria aos trabalhadores. "Uma mídia que revele a realidade e que desmonte as mentiras veiculadas diariamente pela grande imprensa", afirma.

O Brasil, de acordo com Altamiro Borges, vive ainda de forma feudal. "Apenas algumas famílias detêm os meios de comunicação, sem nenhuma regulamentação. As concessões são feitas na base do clientelismo político e favorecimento econômico, e tudo isso feito com o propósito de dominar a massa, o povo e a sociedade, que nada questiona e tudo aceita. Tudo para imbecilizar o povo, criar fantoches na política e derrubar presidentes, falar mal do Estado, do funcionário público e legitimar a superioridade da burguesia sobre o proletariado, além de desmantelar o Estado com as privatizações".

Na avaliação de Altamiro Borges, as eleições de 2010 serão das mais difíceis devido ao grande número de mentiras e baixarias que virão e o motivo está ligado ao fato de termos candidaturas expressivas de mulheres. "Cuidado, qualquer ataque deverá ser revidado, porque a perseguição às mulheres será forte", alerta o jornalista. Os desafios para o movimento sindical, segundo ele, passam pelo estímulo ao senso crítico, investimento nos meios de comunicação sindicais e leitura de revistas, sites e outras publicações alternativas. Também se faz necessário lutar por mudança ma legislação brasileira com o intuito de regulamentar o setor de comunicação.

Processo eleitoral e movimentos sociais

A participação dos movimentos sociais e do movimento sindical no processo eleitoral é fundamental para transformar a força dos trabalhadores em algo positivo, ou seja, que resulte em representatividade política em todas as esferas do poder. É assim que pensa a deputada estadual pelo PCdoB Ângela Albino. Da mesma opinião partilha o presidente da Fetiesc, Idemar Antônio Martini, cuja entidade representa nada menos que 160 mil trabalhadores e trabalhadoras catarinenses.

Nesse contexto de representatividade política, Santa Catarina, de acordo com Ângela, tem a pior participação feminina do Brasil que, por sua vez, é o pior país do mundo em representatividade política das mulheres. "A representatividade política é protagonizada por patrões, homens, heterossexuais, brancos, com mais de 40 anos e com dinheiro. Temos que mudar esse perfil", defende a deputada. Ainda segunda ela, o avanço tecnológico não tem servido aos trabalhadores, mas sim aos patrões, que passaram a ganhar cada vez mais, exigir mais dos trabalhadores, dividir a classe e empobrecer os já menos favorecidos.

Referências ideológicas

O deputado estadual pelo PT catarinense, Pedro Uczai, reforçou a necessidade de participação dos movimentos sociais e sindical no processo eleitoral e salientou que a construção da sociedade acontece a partir da resistência, mas também da dominação. Por isso, temos sempre a opção de reagir e formar nossas próprias bandeiras de luta, nossas próprias referências ideológicas. Discutir política nas escolas e em todas as esferas sociais, especialmente entre os menos favorecidos e marginalizados pelo poder.

Na avaliação de Uczai, que foi prefeito de Chapecó, discutir política nos sindicatos é fundamental para o avanço e manutenção dos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras e aumento da correlação de forças. Ele, porém, admite que o movimento sindical brasileiro não avançou nas últimas décadas, apesar de termos uma participação maior na política formal. "O capitalismo, o mundo do capital, quebrou nossas pernas, nossa coletividade, através de mecanismos de poder sutis e altamente conservadores", avalia. O deputado alerta para a necessidade de reorganização do movimento sindical e social e de maior pressão para se conseguir reverter a situação a favor dos trabalhadores e com isso, conseguir transformar em realidade bandeiras históricas de luta, entre elas, a redução da jornada de trabalho.

Departamento Jornalístico da Fetiesc


 
 
 
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