REFLEXÕES
E PROPOSTAS SOBRE A REFORMA
TRABALHISTA E SINDICAL
Dr.
Edésio Passos
Advogado
I.
Análise do programa
de governo do PT. II.
Pacto nacional, Contrato
social, SEDES E CDES.
III. Diagnóstico
sobre a reforma sindical
e trabalhista. IV. Recomendações
do Conselho de Desenvolvimento
Econômico e Social.
V. Comentários
à proposta de emenda
constitucional 29/2003.
VI – Efeitos da
Convenção
87 da OIT. VII. Reflexões
e propostas sobre a reforma
trabalhista e sindical.
Um
dos pontos elencados como
fundamental para o enfrentamento
dos graves problemas nacionais
é o que se refere
à reforma trabalhista
e sindical. Embora ambas
tenham base comum nas
relações
entre capital e trabalho,
há especificidades
no campo da reforma da
legislação
do trabalho e da legislação
sindical. Debate também
no Direito Constitucional
do Trabalho, pois os direitos
individuais e coletivos
dos trabalhadores e dos
servidores públicos
têm sustentação
na Carta Magna, que tem
sido uma capa de proteção
contra a desconstituição
dos direitos sociais básicos
da classe trabalhadora.
O
breve estudo sobre alguns
pontos desta temática
tem por objetivo apresentar
um quadro genérico
sobre o comportamento
dos agentes responsáveis
pelo conteúdo e
forma dessa mudança,
qual o acúmulo
do debate e sua seqüência
nos fóruns institucionais.
As propostas indicadas
são idéias
iniciais na tentativa
de contribuir com o esforço
conjunto que vem sendo
desenvolvido por todos
aqueles que desejam transformações
necessárias para
a melhoria da vida e do
trabalho do povo brasileiro.
I
– ANÁLISE
DO PROGRAMA DE GOVERNO
DO PT
01.
O programa de governo
do Partido dos Trabalhadores
divulgado e discutido
durante a campanha eleitoral
para a Presidência
da República, está
dividido em quatro partes
principais:
1ª)
crescimento, emprego e
inclusão social;
2ª)
desenvolvimento, distribuição
de renda e estabilidade;
3ª)
inclusão social;
4ª)
infra-estrutura e desenvolvimento
sustentável.
A
reforma trabalhista está
inserida na primeira parte
relativa às questões
de crescimento, emprego
e inclusão social,
especificamente no programa
de reformas tributária,
previdenciária,
agrária, trabalhista
e política.
Para
esse programa de reformas,
a proposta diz que serão
ouvidas sugestões
de toda a sociedade, dentro
de um espírito
nacional e democrático,
além do Executivo
trabalhar com o Legislativo
e o Judiciário
em um mesmo propósito.
Uma ampla negociação
nacional possibilitaria
a aprovação
das reformas pretendidas.
02.
A proposta de reforma
trabalhista está
embasada na “construção
de uma legislação
trabalhista verdadeiramente
moderna”, mas que
somente será alcançada
“se no seu processo
de discussão for
assegurada a participação
dos diferentes setores
sociais interessados”.
Três são
os pontos inicialmente
previstos:
um
amplo debate sobre a reforma
da estrutura sindical;
ampla
análise da reforma
da legislação
trabalhista, constituindo-se
o Fórum Nacional
do Trabalho para examinar
as propostas sobre o tema;
a
questão do desemprego
relacionada com os jovens,
através da avaliação
de um programa nacional
de incentivo à
contratação
de jovens pelas empresas.
O
posicionamento programático
de governo do PT critica
a atual estrutura sindical,
embora não apontando
quais os pontos de estrangulamento
existentes. Considera
ultrapassada a atual legislação
do trabalho, eis que julga
necessária “uma
legislação
trabalhista verdadeiramente
moderna”, mas sem
identificar os pontos
débeis dessa malha
legislativa de proteção
aos trabalhadores. O texto
é genérico
e remete à prévia
discussão da sociedade
organizada.
03.
No que concerne à
reforma da estrutura sindical,
o programa de governo
do PT acentua que “mais
do que uma legislação
sobre direitos mínimos,
o equilíbrio das
relações
de trabalho requer a existência
de sindicatos livres,
autônomos, representativos
e independentes. Para
tanto, nosso governo vai
encaminhar um amplo debate
sobre a reforma da estrutura
sindical brasileira. A
construção
de um novo modelo de relações
de trabalho deverá
ter como pressuposto o
reconhecimento das instituições
representativas dos empregadores
e dos trabalhadores, livremente
constituídas com
a função
de promover o diálogo
e o entendimento sobre
as contradições
inerentes às relações
de trabalho. Nesse sentido,
um primeiro passo necessário
será reconhecer
as centrais sindicais
como interlocutores dos
interesses dos trabalhadores”.
O
texto é crítico
à atual estrutura
sindical pois, ao apontar
para a necessidade de
entidades livres, autônomas,
representativas e independentes,
considera as atuais como
subordinadas, dependentes
e não-representativas.
Aqui também não
se identificam as questões
pontuais.
04.
Quanto à mudança
da legislação
do trabalho, o programa
de governo do PT busca
enfrentar a difícil
tarefa, propondo a formação
de um Fórum Nacional
do Trabalho, a saber:
“Com
o objetivo de promover
a mais ampla reforma na
legislação
trabalhista, o governo
convocará todas
as entidades sindicais
representativas dos trabalhadores
e dos empregadores a constituírem
um Fórum Nacional
do Trabalho, estruturado
de forma tripartide. Sua
finalidade imediata será
a de preparar, democraticamente,
as propostas de alteração
da legislação
atual. Dentro do tempo
previsto pelo governo,
o Fórum Nacional
do Trabalho deverá
apresentar suas propostas,
que se traduzirão
num conjunto de leis para
modernizar a atual Consolidação
das Leis do Trabalho.
Após a sua aprovação
pelo Congresso Nacional,
essas leis passarão
a regulamentar o novo
sistema de relações
de trabalho. O objetivo
central desse processo
é a melhoria da
qualidade de emprego e
principalmente a ampliação
da formalização
do trabalho, incorporando
milhões de trabalhadores
ao mercado regulado do
trabalho, com reflexos
importantes nas contas
previdenciárias
e nos fundos públicos”.
05.
A proposta de um fórum
nacional no âmbito
trabalhista foi concretizada
na gestão do Ministro
Walter Barelli, quando,
em 1993, constituiu o
Fórum Nacional
sobre Contrato Coletivo
e Relações
de Trabalho, composto
por representantes de
entidades empresariais,
de trabalhadores, do poder
público e da sociedade
civil. A importante experiência
de análise da contratação
coletiva e relações
de trabalho contribuiu
para o debate da temática,
mas não conseguiu
avançar para propostas
legislativas, encerrando-se
com um documento final
sobre pontos programáticos.
Passa
dos oito anos de neoliberalismo,
a legislação
do trabalho foi atingida
duramente pela desconstituição
de algumas de suas bases,
em decorrência da
política de flexibilização,
terceirização
e ampla precarização
nas relações
de trabalho. As conseqüências
dessa política
desastrosa refletem-se,
em especial, na informalidade
crescente do trabalho,
no avanço do desemprego,
na perda do poder aquisitivo
do trabalhador com a queda
da massa salarial, na
fragilização
da mini, pequena e média
empresa, no enfraquecimento
da representação
sindical profissional.
Se
a primeira tarefa relacionada
com a mudança na
estrutura sindical encontrará
dificuldades acentuadas
para ser encaminhada,
este segundo ponto está
situado entre um dos mais
complexos de nossa atualidade
política e jurídica.
06.
Diz, ainda, o programa
de governo do PT que:
“um
dos principais desafios
para evitar a exclusão
do mercado de trabalho
é diminuir a taxa
de desemprego entre jovens,
situada hoje em torno
de 30%. A queda da renda
familiar provocada pela
relativa estagnação
da economia, a alta taxa
de desemprego e a inadequação
do sistema de ensino vêm
gerando um número
cada vez maior de jovens
que não conseguem
ingressar e permanecer
no mercado de trabalho”.
Visando
enfrentar a questão,
está prevista a
criação
do “programa nacional
de incentivo à
contratação
de jovens pelas empresas
e de estagiários
comunitários, ampliando
o que já vem sendo
posto em prática
por governos municipais
e estaduais administrados
pelo PT e pelos demais
partidos coligados”.
A questão do emprego
para os jovens está
inserida no item da reforma
trabalhista sem uma explicação
mais detalhada do que
seria o programa de incentivo
à contratação
de jovens, ou seja, se
referido programa determinaria
mudanças na legislação
trabalhista para facilitar
esse objetivo. Há
propostas que estão
ligadas à reforma
tributária, desde
a redução
até a isenção
de tributos, no caso das
empresas ampliarem o número
de seus empregados com
a contratação
de jovens e a eles ensejarem
a continuidade de estudo
formal. De qualquer modo,
a matéria relativa
à geração
de empregos está
diretamente ligada à
problemática das
relações
de trabalho no seu conjunto.
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