| Seminário
debate sobre a
realidade da mulher
trabalhadora
Mulher trabalhadora
no mercado de trabalho
foi tema principal
do seminário,
realizado de 12
a 14 de março,
na Fetiesc
O
Centro de Educação
Sindical da Fetiesc,
em Meia Praia, Itapema,
reuniu de 12 a 14
de março
mulheres de vários
movimentos sociais
do Brasil para debater
sobre o “Desafio
da inclusão
da mulher no mercado
de trabalho e na
previdência
social”. Coordenado
pela Secretaria
da Mulher da Fetiesc
e pela secretaria
de Políticas
Públicas
para Mulheres do
governo federal,
entre outras entidades
promotoras, o evento
teve presença
de aproximadamente
60 mulheres trabalhadoras.
“A proposta
da Fetiesc é
de lutar pelo fim
das desigualdades
salariais e pela
igualdade de oportunidades
a homens e mulheres
no mercado de trabalho”,
avalia o presidente
da Fetiesc, Idemar
Antônio Martini.
Para a secretária
da Mulher da Fetiesc,
Marli Leandro, o
Seminário
“foi um momento
importante de reflexão
sobre a luta das
mulheres pela igualdade
de direitos”.
Três
maiores desafios
A
última edição
do Fórum
Social Mundial,
realizado entre
22 e 26 de janeiro
deste ano, em Belém/PA,
apontou a decisão
do movimento de
mulheres para três
desafios importantes:
primeiro, o enfrentamento
da crise, tanto
financeira, como
ambiental, energética,
etc, partindo da
constatação
de que o livre mercado,
sem controle, não
existe e de que
os estados nacionais
continuam financiando
o aumento do capital,
salvando bancos,
empreiteiras, imobiliárias
falidos. Em contrapartida,
como fica a proteção
da seguridade social
para as mulheres?,
questiona Verônica
Ferreira, representante
da Ong “SOS
Corpo”, uma
das coordenadoras
do Seminário.
O
segundo desafio
é combater
a criminalização
das mulheres na
sua luta por autonomia,
sobretudo a reprodutiva.
Está havendo
o que Verônica
Ferreira chama de
uma “contra
ofensiva patriarcal”,
citando como exemplo
a excomunhão
anunciada pelo arcebispo
de Olinda e Recife
(PE), dom José
Cardoso Sobrinho
à equipe
médica e
à mãe
envolvidos no aborto
da gravidez de gêmeos
(decorrente de estupro,
pelo padrasto) da
menina de 9 anos.
As participantes
do Seminário
aprovaram Moção
de Repúdio
ao Bispo. “O
Brasil é
um estado laico
onde todas as religiões
convivem com respeito.
É inconcebível
que a igreja possa
interferir numa
decisão de
estado. Estado não
tem religião”,
criticou a representante
do Centro Feminista
de Estudos e Assessoria
(CFEMEA), Eneida
Bello Dutra. O terceiro
desafio para as
mulheres, definido
no FSM, diz respeito
à violência
doméstica.
Pilar
da opressão
Para
a representante
da Secretaria Especial
de Políticas
Públicas
para as Mulheres,
também coordenadora
do Seminário,
Isabel da Silva
Freitas, o pilar
da opressão
da mulher na sociedade
“está
assentado no patriarcado,
no racismo e no
modelo de exploração
e acumulação
do capital”.
Ela critica que
“nenhuma mulher
pode falar em igualdade
e conviver em um
país com
várias nações,
onde as negras e
índias são
esquecidas”.
Isabel considera
que as cotas para
negros nas universidades,
por exemplo, são
dívidas que
precisam ser pagas
pela sociedade:
“Quero negros
nas universidades
não em manchetes
policiais dos jornais”,
defende, insistindo
na premissa de que
“é
preciso quebrar
as três pernas
da opressão”.
Direitos
das índias
“Não
são só
os homens que têm
direitos, as mulheres
também. Temos
direito à
política,
ao trabalho, à
vida. Os índios
sofrem discriminação
por quererem o que
é deles.
Somos discriminados
na saúde.
Desde 1999, quando
a Fundação
Nacional de Saúde
entrou na nossa
reserva, não
houve resultado.
Mas vamos continuar
lutando porque o
governo precisa
nos enxergar na
sua frente. Queremos
apoio. Os colonos
que moram nas nossas
terras estão
devastando tudo,
é gente brava,
brigam com arma
de fogo, que acerta
a gente sem a gente
ver”.
Depoimento
da representante
das mulheres de
organizações
indígenas,
Diná Ganven
Patte, 52 anos,
nascida na reserva
da tribo Xokleng,
em José Boiteux,
onde vivem 2.300
índios, entre
eles, 600 crianças.
A reserva, de 14
mil hectares, fica
entre os municípios
de Vitor Meireles,
Itaiópolis
e José Boiteux.
Diná Ganven
conta ainda que
os índios
não podem
ir para a cidade
de Vitor Meireles
porque são
ameaçados
pelos colonos. Foi
feito relatório
de terras e encaminhado
pedido de solução
ao ministro da justiça,
Tarso Genro. “O
governo Lula tem
prometido demarcação
da terra até
o final de 2009,
até agora,
nada”, disse
Diná, presente
ao Seminário.
Sistema
de Seguridade para
mulheres
“Seguridade
Social: Previdência
e Assistência
Social – conceitos
e o que queremos”
foi tema do debate
coordenado por Verônica
Ferreira, da SOS
Corpo, que destacou
o direito à
assistência
social enquanto
política
pública no
país, a partir
da Constituição
Federal de 1988.
“Até-então
só conhecíamos
práticas
clientelistas em
troca de favor político”,
recordou. Ela explica,
no entanto que,
embora o Sistema
de Assistência
Social seja universal,
com orçamento
próprio,
ele não é
válido para
todas as pessoas,
“é
seletivo, porque
só têm
acesso aquelas que
não podem
prover sua subsistência”.
Já
a Previdência
Social no país
é assegurada
a quem trabalha,
e tem direito a
auxílio-doença,
aposentadoria, licença
maternidade, etc.
Verônica critica
o sistema previdenciário
por ser, assim,
contributivo. “É
limitado porque
nem todas temos
carteira assinada,
a informalidade
é ainda pior
para mulheres e
negras e o trabalho
doméstico
não é
reconhecido”,
analisou. Para a
palestrante, o único
direito das mulheres
“é
de se aposentar
cinco anos antes
do que os homens”.
Verônica
lembra que “a
ideia do quanto
menos estado, melhor”
já se mostrou
incapaz pela lógica
perversa do mercado.
Mas que, a partir
da década
de 90, com o avanço
do neoliberalismo
no Brasil e no mundo,
a situação
se complicou. “O
governo FHC acabou
com a aposentadoria
por tempo de serviço,
mantendo só
pelo tempo de contribuição.
Depois, o fator
previdenciário
passou a calcular
a relação
entre o tempo de
contribuição
e a expectativa
de vida do trabalhador,
limitando em 30%
a concessão
da aposentadoria
para as mulheres”,
resgata a palestrante,
lembrando ainda
que “com FHC
veio a destruição
da Previdência
Social e a volta
do sistema contributivo”.
No
governo Lula, a
continuidade da
política
econômica
de FHC manteve a
proposta de acabar
com a diferença
de idade para aposentadoria
das mulheres, aumentar
o tempo de contribuição,
desvincular os trabalhadores
rurais, além
de acabar com medida
que proíbe
a redução
no valor do benefício.
“Foram propostas
barradas pelos movimentos
sociais e sindicais
do país,
no ano de 2007”,
lembrou Verônica.
Ela critica a política
de transferência
de renda no governo
Lula – como
o programa Bolsa
Família -
“que transfere
mas não redistribui,
não enfrenta
a concentração
de renda no país”.
Grandes
fortunas
O
orçamento
da seguridade social
no Brasil não
está falido,
enfatiza a palestrante
Verônica Ferreira.
Ela considera que
“o objetivo
dessa mentira é
retirar direitos
e acabar com a universalidade”,
e sugere: “Precisa
taxar as grandes
fortunas para assegurar
a ampliação
da Previdência
Social, implantar
uma reforma tributária
que enfrente a concentração
de renda no Brasil”.
Verônica reforça
que o sistema contributivo
é injusto,
“até
porque quem tem
menos, paga mais”,
e lembra que “a
grande maioria das
mulheres brasileiras
envelhecem sem direito
à aposentadoria”.
Reforma
Tributária
O
Sistema de Seguridade
Social compreende
o financiamento
do SUS (Sistema
Único de
Saúde), do
SUAS (Sistema Único
de Assistência
Social), e da Previdência
Social, cujas fontes
vêm de contribuições
sociais sobre o
faturamento das
empresas, a Cofins
(Contribuição
para o Financiamento
da Seguridade Social).
Para 2009, a receita
da Cofins prevista
é de R$ 235
bilhões.
“A
reforma tributária,
que está
acontecendo, extingue
as contribuições
sociais e as substitui
por imposto”,
advertiu a representante
do CFEMEA, Eneida
Bello Dutra. “Parte
do imposto irá
para a Seguridade
Social, mas o financiamento
do sistema vai ficar
mais limitado”,
reforçou,
lembrando que “o
imposto também
poderá ser
canalizado para
outras áreas
(fundos de participação
dos municípios,
para os estados),
não sendo
mais exclusivos
da Seguridade”.
A
representante da
Secretaria Especial
de Políticas
Públicas
para as Mulheres,
Isabel da Silva
Freitas, vai mais
longe: “A
reforma autoriza
o governo federal
a pegar o dinheiro
do imposto para
salvar bancos e
montadoras de automóveis,
por exemplo”.
O problema é
muito sério,
porque “o
pouco que se tem,
corre risco de desaparecer”,
completa. “Queremos
reforma tributária
distributiva e vamos
reunir movimentos
de mulheres, sindicatos
e outras entidades
em defesa dos direitos
sociais”,
conclama Isabel. |