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ENTREVISTA: Secretário de Saúde do Trabalhador da Fetiesc, Gabriel Fantin

“A vida é a coisa mais importante que temos. Preservá-la vale a pena!”

Em entrevista, o Secretário de Saúde do Trabalhador, Gabriel Fantin, faz uma análise do sindicalismo brasileiro e afirma ser preciso a classe trabalhadora se organizar, se unir e agir com a força política para reverter a situação a que foram submetidos pelas forças neoliberais

No dia 28 de abril celebramos o Dia Mundial em Memória às Vítimas de Acidentes e Doenças Relacionadas ao Trabalho. Para refletir sobre esta importante questão que envolve a vida, a saúde e a segurança da classe trabalhadora, entrevistamos o Secretário de Saúde do Trabalhador, da Federação dos Trabalhadores nas Indústrias de Santa Catarina (FETIESC), Gabriel Fantin, o qual suscita importante questões que devem ser consideradas pelos trabalhadores de modo a se colocarem na luta pela defesa dos seus direitos e, sobretudo, da própria vida. Acompanhe.

Como o senhor avalia o atual cenário no que tange à saúde do trabalhador brasileiro, que hoje vive em um contexto neoliberal agravado pela situação pós-reforma trabalhista e pelo período pós-pandemia?

Gabriel Fantin – Esse cenário pós-reforma trabalhista e pós-pandemia trouxe sequelas graves para o trabalhador brasileiro. Primeiro pela desregulamentação das leis trabalhistas vindo trazer um arrocho ao nosso trabalhador, de forma geral: na pressão por produtividade, no deixar de notificar os acidentes de trabalho e também o assédio com o trabalhador no sentido de retirar tudo aquilo que ele pode dar da sua força de trabalho em benefício de gerar capital. 

Também a pandemia trouxe sequelas ao trabalhador, e sabemos que quando ele não tem mais a produtividade esperada pelo patrão e pelo capital financeiro, ele é renegado a segundo plano. Costumo dizer que o lixo do papel é utilizado para fazer um novo papel e o trabalhador quando fica doente, infelizmente, não é utilizado para mais nada. Ele fica à margem! Então,  tanto as leis trabalhistas – com uma ‘ponte para o futuro’ do presidente Temer e que foi a ‘ponte para o inferno’  – quanto a pandemia veio para aniquilar a vida do trabalhador. 

 

Nos últimos governos houve um ataque e enfraquecimento tanto do Ministério Público do Trabalho quanto dos sindicatos, o que acabou por fragilizar o acesso à fiscalização e ações para coibir o assédio e as várias formas de violência ao trabalhador. Ao seu ver, neste novo governo do Presidente Lula – que é um sindicalista – que ações devem ser implementadas para diminuir esses casos de violência?

Gabriel Fantin – Antigamente o trabalhador tinha vários segmentos que o defendiam. Nós iniciamos a luta do trabalhador na Revolução Industrial com o apoio da igreja e das religiões. Vimos no governo passado que uma parte ou quase a totalidade da fé do trabalhador partiu para o neoliberalismo, com isso o trabalhador acabou ficando sozinho, restando para ele somente o Ministério do Trabalho como proteção. E nós também tivemos no governo passado a aniquilação do Ministério do Trabalho e isso ficou muito difícil para o trabalhador; e isso continua. 

Se nós pegarmos a Proposta de Emenda Constitucional (PEC), que está tramitando no Congresso Nacional, assinada e apoiada pelos deputados federais catarinenses para a extinção do Ministério do Trabalho. Isso é um absurdo total! Isso é uma piada. O Ministério do Trabalho é o único órgão que defende o trabalhador. 

Essa desregulamentação da Justiça do Trabalho complica a fiscalização e também a defesa do trabalhador em órgão superior que é o nosso Ministério do Trabalho. 

Na questão do sindicato é um absurdo, pois retira-se todo o direito de o trabalhador ser defendido pelo sindicato da sua categoria. Faz-se uma política contrária para que ele não se filie ao sindicato, com graves pressões dentro das empresas, fazendo com que o trabalhador não tenha como reivindicar melhores condições de trabalho e de salário. 

Esse é o fundamento da empresa em benefício do capital: é fazer com que o trabalhador não tenha vez e nem voz, somente empreste ao trabalho aquele tempo de vida útil que ele tem para gerar capital, apenas isso. 

Neste sentido, o trabalhador brasileiro tem que abrir o olho porque só há um caminho: político e de organização. Nós temos que nos organizar, nos unir e agir com força política para mudar essa situação, porque se nós dependermos do Congresso Nacional que temos hoje, colocado lá pelo próprio trabalhador catarinense, nós estamos perdidos, porque é esse tipo de proposta que eles apresentam ao invés de defenderem propostas para que os trabalhadores tenham mais segurança no trabalho, mais estabilidade com seus familiares e possam fazer das suas famílias uma unidade próspera. Pelo contrário, os deputados catarinenses apresentaram uma proposta para aniquilar os trabalhadores para que, no futuro, tenham mão-de-obra ainda mais barata.

 

Ao seu ver, a uberização de algumas profissões é uma tendência para a precarização do trabalho? Se sim, como o movimento sindical organizado pode contribuir para combater essa situação?

Gabriel Fantin – Na organização de algumas profissões, no sentido de tecnologia, há uma tendência a precarizar o trabalho porque os nossos governos nos últimos anos não investiram em educação. 

O nosso povo na linha de trabalho é uma categoria na faixa etária entre 30 e 50 anos de idade que não se adapta muito bem às novas formas de trabalho e por isso são renegados à margem.

Acredito que ainda não temos a possibilidade de tocar uma indústria tecnicamente renovada na questão da informática e outros encaminhamentos por causa da nossa educação. 

A nossa educação está precária e eu volto a repetir: o Brasil só tem um caminho: organização e educação. Neste sentido, acho que o presidente Lula está correto em abrir oportunidades àqueles que não têm condições de pagar uma universidade ou um estudo mais aprimorado, os quais agora têm essa oportunidade por meio das cotas. Esse é um projeto muito importante para a classe trabalhadora brasileira. 

 

Há anos a FETIESC se mantém em um contínuo Movimento em Defesa da Vida, Saúde e Segurança da Classe Trabalhadora Catarinense (MOVIDA), o senhor poderia listar algumas conquistas deste período e os novos desafios da Secretaria de Saúde do Trabalhador, uma vez que atualmente competimos com uma sociedade de muita informação, mas pouco conhecimento?

Gabriel Fantin – O MOVIDA não é um movimento só da FETIESC, mas é ela quem tem conduzido esse processo chamando outras entidades a participar. 

Nós entendemos que a vida é a coisa mais importante que temos, tanto que se eu pegar qualquer trabalhador e pedir para que ele me venda 30 minutos de sua vida, não tem preço que pague. No entanto, essa vida do trabalhador está sendo ceifada na linha de trabalho, sendo que o trabalhador vai lá, dá tudo dele no sentido de mostrar trabalho e a produtividade exigida, e com esse trabalho forçado o trabalhador vai perdendo gradativamente a capacidade de vida. 

Se o empregado trabalhar em um ambiente insalubre, vai viver muito menos do que aquele que trabalha num serviço salubre. Então essa é a importância deste movimento: chamar a atenção da sociedade e das entidades políticas de que o nosso trabalhador está adoecendo e pouca gente está vendo. 

A FETIESC, abrindo os olhos para esse horizonte no sentido de proteger a vida do trabalhador, tem alcançado alguns avanços: foram feitas algumas cartas de intenções encaminhadas à categoria política e ao Ministério do Trabalho; também temos sensibilizado as populações em diversas cidades catarinenses, aonde chegamos a ver 3 mil trabalhadores protestando para que diminua esse desenfreamento do número de acidentes de trabalho e das doenças ocupacionais. 

Então o papel do MOVIDA é chamar a atenção da classe política, da sociedade e do trabalhador de que a vida tem que ser preservada em primeiro lugar porque esse é o bem mais precioso que ele tem.

 

Recente e constantemente estão sendo noticiados casos de trabalhadores de grandes empresas encontrados em situação de trabalho análoga à escravidão. A que variáveis contemporâneas o senhor atribui todo esse retrocesso?

Gabriel Fantin – Hoje temos dois tipos de escravidão.  Uma delas é o trabalho análogo ao escravo, onde os trabalhadores vão e ficam lá fechados, dormem e comem mal e prestam o trabalho sem receber ou muita pouca remuneração. 

Mas vejo também um outro tipo de escravidão, por exemplo, o grande número de trabalhadores que estão na frente do trabalho, regulamentados, com carteira assinada, mas  ganhando R$ 1,3 mil por mês. Esse é o tipo de escravidão branca! A escravidão que não aparece, mas que submete aquele trabalhador que fica o dia todo na fábrica, porém, com a sua família não vive bem, pois passa dificuldades de alimentação, medicamentos… 

É esse tipo de escravidão que também temos que nos colocar contra, tentando melhorar a possibilidade de vida do trabalhador num geral. Hoje em torno de 60% dos trabalhadores estão submetidos a esse tipo de escravidão.  Estão à margem! Conseguem sobreviver muito mal. 

Entendo que a política social do presidente Lula e essa política de melhora do salário mínimo, fazendo com o que trabalhador seja mais respeitado, poderá melhorar essa situação. 

 

Como os trabalhadores e as trabalhadoras poderão ‘quebrar a bolha’ para ganharem vez e voz nos grandes veículos de comunicação e  poder denunciar  o descaso e a falta de atenção dos empregadores para com os seus empregados? 

Gabriel Fantin – Hoje temos uma grande dificuldade de passarmos ao trabalhador aquilo que sentimos, no sentido de organizar a categoria, por meio dos meios de comunicação, porque isso custa caro. O trabalhador não tem dinheiro e os sindicatos, com a nova Reforma Trabalhista, foram aniquilados. 

Mas entendo que o trabalhador e o sindicato têm como fazer o papel da rádio peão, ou seja, um trabalhador vai levando ao outro aquele sentimento que tem, denunciando ao sindicato aquilo que está errado. 

Hoje também temos as mídias digitais e as redes sociais, as quais, às vezes se constituem em um perigo para o trabalhador, porque quando você coloca um aviso importante para o trabalhador, um deles que seja contrário àquela informação, destrói tudo com mentiras e fake news. Então também vejo isso como uma complicação, mas é um caminho para chegarmos até o trabalhador e fazer o serviço na porta da fábrica. 

 

Por vezes parece que há uma espécie de inação por parte de alguns trabalhadores que não se solidarizam com os altos índices e por vezes nem se dão conta de que são vítimas da falta de segurança e assédio moral no ambiente de trabalho. A que o senhor atribui essa aversão a essa causa tão importante e que tanto impacta as vidas e a economia?

Gabriel Fantin – Já com meus 51 anos de carteira assinada, posso dizer que conheço muito bem o chão de fábrica. 

Tem aquele trabalhador que vai lá e vende o trabalho, mas não vende a dignidade. Esse é o trabalhador que deve ser respeitado! Aquele que vai lá   e valoriza o próprio suor no chão de fábrica. 

Temos também o trabalhador que vai lá, que pensa que é burguês, pensa que é dono da fábrica, e além dele se prejudicar a si próprio, prejudica o colega que está ao lado. Esse tipo de trabalhador dificulta muito o trabalho da organização sindical e da organização do próprio trabalhador. 

Temos que entender que o sindicato não é a casa física. Sindicato é cada trabalhador e trabalhadora que está no chão da fábrica. E alguns não veem isso e acabam ficando do lado do capital financeiro. Acho isso um absurdo, mas devagar temos que ir trabalhando. 

Também de um tempo pra cá se criou uma polarização de ódio e de rancor para com o trabalhador devido o neoliberalismo que impetrou no poder nos últimos seis anos e que deixou como consequência famílias e trabalhadores divididos. 

Mas acho que com a sensibilidade que temos de trabalhar (sindicatos, federações, confederações, centrais) vamos fazer com que trabalhador pense como trabalhador; que venda o seu trabalho como uma coisa sagrada e que não se venda ao capital financeiro o qual não representa absolutamente nada a não ser ferros frios, aplicado nas bolsas de valores. Porém se não tiver o trabalhador lá dentro, nada disso acontece.

 

Por fim, quais as suas perspectivas para com essa luta pela defesa da vida, saúde e segurança da classe trabalhadora? Há algo que os trabalhadores podem fazer para lograr êxito nessa batalha pelos seus direitos?

Gabriel Fantin – Todo dirigente sindical (a federação, as confederações e as centrais sindicais) nunca vão desistir de lutar pela vida do trabalhador. Nós vamos fazer isso sempre, mesmo avançando pouco ou avançando muito, a gente sempre vai continuar esse trabalho em defesa do trabalhador. 

O que o trabalhador pode fazer para nos ajudar? Denunciando! Temos trabalhador que trabalha machucado, com mãos enroladas e esmagadas em fábricas. Temos trabalhadores morrendo na linha de trabalho. Então o trabalhador que denuncie. Toda denúncia que seja ao sindicato é mantida em sigilo. Então é muito importante a organização do trabalhador no sentido de denunciar tudo aquilo que venha a prejudicá-lo seja por doença ocupacional (assédio moral ou da exigência de produtividade) ou por acidente de trabalho propriamente dito. A gente está a disposição de todo o trabalhador e quero dizer: A vida é a coisa mais importante que temos. Preservá-la, vale a pena!

 

Imprensa Fetiesc

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